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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Manhãzinha de verão

Mas estou cansada, apesar de minha alegria de hoje, alegria que não se sabe de onde vem, como a da manhãzinha de verão. Estou cansada, agora agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas ago­ra já é desejo de poesia, isso eu confesso, Deus. Dur­mamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando so­bre o mar, eis o sono.

Clarice In Perto do Coração Selvagem

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Feminilidade

Sentia o mundo palpitar docemente em seu peito, doía-lhe o corpo como se nele suportasse a feminilidade de todas as mulheres.

Perto do Coração Selvagem

Pureza

Erguia-se para uma nova manhã, docemente viva. E sua felicidade era pura como o reflexo do sol na água.

Perto do Coração Selvagem

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Erva frágil...

E amava aquele homem como se ela mesma fosse uma erva frágil e o vento a dobrasse, a fustigasse.

Perto do Coração Selvagem

{...}

A palavra estala entre meus dentes em estilhaços frágeis.

Perto do Coração Selvagem

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Minha natureza

Vou continuar, é exatamente de minha natureza nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos.

Perto do Coração Selvagem

terça-feira, 24 de março de 2009

Intuição aguda

{...}Agora a certeza de imortalidade se desvanecera para sempre. Mais uma vez ou duas na vida - talvez num fim de tarde, num instante de amor, no momento de morrer - teria a sublime inconsciência criadora, a intuição aguda e cega de que era realmente imortal para todo o sempre.

Perto do Coração Selvagem

segunda-feira, 16 de março de 2009

Doce milagre

Qualquer coisa agitava-se em mim e era certamente meu corpo apenas. Mas num doce milagre tudo se torna transparente e isso era certamente a minha alma também. Nesse instante eu estava verdadeiramente no meu interior e havia silêncio.


Perto do Coração Selvagem

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Estrelas

Se o brilho das estrelas dói em mim, se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim.


Perto do Coração Selvagem

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Cavalo novo

{...} E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro! Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.


Perto do Coração Selvagem

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Por que?

{...} o piano foi atacado deliberadamente em escalas fortes e uniformes. Exercícios, pensou: exercícios...sim, descobriu divertida...por que não? Por que não tentar amar? Por que não tentar viver?

Perto do Coração Selvagem

Serenamente vazia

{...}chorou livremente, como se esta fosse a solução. As lágrimas corriam grossas, sem que ela contraísse um só músculo da face. Chorou tanto que não soube contar. Sentiu-se depois como se tivesse voltado às suas verdadeiras proporções, miúda, murcha, humilde. Serenamente vazia.

Perto do Coração Selvagem

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Domingo

{...} Os marinheiros passeando pelo cais, pela praça. Um vestido cor-de-rosa aparecendo e desaparecendo numa esquina. As árvores cristalizadas em domingo, - domingo é qualquer coisa como árvores de Natal - brilhando silenciosas, contendo, assim, a respiração. Um homem passando com uma mulher de vestido novo. O homem quer não ser nada, anda ao lado dela olhando-a quase de frente, indagando, indagando: diga, mande, pise. Ela não respondendo, sorrindo, puro domingo. Satisfação, satisfação. Pura tristeza sem mágoa. Tristeza de domingo no cais do porto, os marinheiros emprestados à terra. Essa tristeza leve é a constatação de viver. Como não se sabe de que modo usar esse conhecimento súbito, vem a tristeza.

Perto do Coração Selvagem

Remorso

{...} Sentia o remorso como um ácido a espalhar-se pelo interior do corpo. Mas cada vez mais odiava-a por não poder amá-la.

Perto do Coração Selvagem

Dormir

Só não se habituara a dormir. Dormir era cada noite uma aventura, cair da claridade fácil em que vivia para o mesmo mistério, sombrio e fresco, atravessar a escuridão. Morrer e renascer.

Perto do Coração Selvagem

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Prazer

Quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa - daí o temor maior ainda. Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos.

Perto do Coração Selvagem

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Não sei

"Não sei" não é resposta. Aprenda a encontrar tudo o que existe dentro de você.

Perto do Coração Selvagem 

Doçura da infância

As relações com as pessoas tornavam-se cada vez mais diferentes das relações que mantinha consigo mesma. A doçura da infância desaparecia nos seus últimos traços, alguma fonte estancava para o exterior e o que ela oferecia aos passos dos estranhos era areia incolor e seca. Mas ela caminhava para frente, sempre para a frente, como se anda na praia, o vento alisando o rosto, levando para trás os cabelos.

Perto do Coração Selvagem

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Quem Sou...

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

Perto do Coração Selvagem

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Busca do Prazer

Afinal nessa busca de prazer está resumida a vida animal. A vida humana é mais complexa: re­sume-se na busca do prazer, no seu temor, e sobre­tudo na insatisfação dos intervalos, É um pouco sim­plista o que estou falando, mas não importa por en­quanto. Compreende? Toda ânsia é busca de prazer. Todo remorso, piedade, bondade, é o seu temor. Todo o desespero e as buscas de outros caminhos são a insatisfação. Eis aí um resumo, se você quer. Com­preende?

 

Perto do Coração Selvagem