quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Homenagem para Aniversário de Clarice

Clarice
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial. Essencial era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo, onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice viveu para nós
em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice,
que usamos de empréstimo, ela é dona de tudo.

Clarice não foi um lugar comum.
Carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados materiais.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela o que havia de salões, de escadarias,
de tetos fosforescente e longas estepes e
zimbórios e pontes do Recife em brumas envoltas
formava um país, o pais onde Clarice vivia,
só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis, os
cumprimentos falavam em agora em edições,
possíveis coquetéis à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava-nos.

Fascinava-nos apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia...saberemos amar Clarice.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Feminilidade

Sentia o mundo palpitar docemente em seu peito, doía-lhe o corpo como se nele suportasse a feminilidade de todas as mulheres.

Perto do Coração Selvagem

Pureza

Erguia-se para uma nova manhã, docemente viva. E sua felicidade era pura como o reflexo do sol na água.

Perto do Coração Selvagem

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Erva frágil...

E amava aquele homem como se ela mesma fosse uma erva frágil e o vento a dobrasse, a fustigasse.

Perto do Coração Selvagem

{...}

A palavra estala entre meus dentes em estilhaços frágeis.

Perto do Coração Selvagem

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Tragédia

A tragédia de viver existe sim e nós a sentimos. Mas isso não impede que tenhamos uma profunda aproximação da alegria com essa mesma vida.

Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Instante

Passara o instante de vislumbramento. Instante imobilizado como por uma máquina fotográfica que tivesse captado alguma coisa que jamais as palavras dirão.

Onde Estivestes de Noite

domingo, 18 de outubro de 2009

{...}

Todo cavalo é selvagem e arisco quando mãos inseguras o tocam.

Onde Estiveste de Noite

sábado, 17 de outubro de 2009

Asas de um anjo...

Na queda ridícula as asas de um anjo quebrei. Não abaixo a cabeça rosnante: quero ao menos sofrer tua vitória com o sofrimento angélico de tua harmonia, de tua alegria. Mas dói-me o coração grosseiro como de amor por um homem.

Onde Estiveste de Noite

Sentir e Existir

Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.

Onde Estiveste de Noite

Demônio

{...}Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.


Onde Estiveste de Noite

domingo, 13 de setembro de 2009

{...}

E acima da liberdade, acima de certo vazio crio ondas musicais calmíssimas e repetidas. A loucura do invento livre.

Água Viva

Criação

Criar de si próprio um ser é muito grave. Estou me criando. E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos.

Água Viva

Morrer com Vida

Quero morrer com vida. Juro que só morrerei lucrando o último instante. Há uma prece profunda em mim que vai nascer não sei quando. Queria tanto morrer de saúde. Como quem explode. Éclater é melhor: j'éclater. Por enquanto há diálogo contigo. Depois será monólogo. Depois o silêncio. Sei que haverá uma ordem.

Água Viva

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Liberdade

O que é um cavalo? É liberdade tão indomável que se torna inútil aprisioná-lo para que sirva ao homem: deixa-se domesticar mas com um simples movimento de safanão rebelde de cabeça - sacudindo a crina como a uma solta cabeleira - mostra que sua íntima natureza é simples bravia e límpida e livre.


Onde Estivestes de Noite

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Alma livre

Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar.

Onde Estivestes de Noite

domingo, 5 de julho de 2009

O que há de melhor

A forma do cavalo representa o que há de melhor no ser humano. Tenho um cavalo dentro de mim que raramente se exprime. Mas quando vejo outro cavalo então o meu ser expressa. Sua forma fala.

Onde Estivestes de Noite

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Diante da Morte

A mulher, que sou eu, só quer alegria. Mas eu me curvo diante da morte. Que virá, virá, virá, virá. Quando? Aí é que está, pode vir a qualquer momento.

Onde Estivestes de Noite

domingo, 28 de junho de 2009

Hálito de Alegria

Onde expira um pensamento está uma ideia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é pra lá que eu vou.

Onde Estivestes de Noite

domingo, 21 de junho de 2009

Inquietude

Mas estou também inquieta. Eu estava organizada para me consolar da angústia e da dor. Mas como é que me arrumo com essa simples e tranquila alegria. É que não estou habituada a não precisar de meu próprio consolo.

Onde Estivestes de Noite

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Escuridão

Mas o que eu queria era trazer à tona de mim a própria e rica escuridão, que seria como petróleo jorrando escuro e espesso e rico.

Um Sopro de Vida

terça-feira, 2 de junho de 2009

Escuridão de alma

Vivo em escuridão de alma, e o coração pulsando, sôfrego pelas futuras batidas que não podem parar. Mas uma ou outra frase se salva das trevas e sobe leve e volátil à minha superfície, então anoto aqui.

Um Sopro de Vida

segunda-feira, 25 de maio de 2009

{...}

Quando estou muito alegre de repente penso que se morre.

Um Sopro de Vida

domingo, 24 de maio de 2009

Não viver

Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo. Mas o segredo, este não vejo nem sinto. A eletrola está quebrada e não viver com música é trair a condição humana que é cercada de música. Aliás, música é uma abstrada do pensamento.

Onde Estivestes de Noite

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Estrela

Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta tarde triste que uma palavra humana salvaria.


Onde Estivestes de Noite